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O gaúcho: entre cantos e contos

Autor: Thaís de Oliveira
Páginas: 278 pgs.
Ano da Publicação: 2018
Editora: Instituto Memória
De: R$ 120,00 - por: R$ 100,00

SINOPSE

PREFÁCIO

 

O primeiro modo de o ser humano apreender e tentar compreender os fenômenos do mundo em que vive é a imagem. Não se trata apenas ou exclusivamente de imagem visual, muito embora essa espécie seja tão valorizada e difundida na contemporaneidade. Fala-se, aqui, da representação do mundo por imagens. Por meio de cada um dos seus sentidos o ser humano apreende aspectos da vida e elabora imagens do seu mundo, às quais atribui significação que lhe permita compreender, em alguma medida, o contexto em que vive. Nesse processo de representação do mundo por imagens, cada indivíduo ou grupo vai paulatinamente compondo um repertório cultural cujos elementos estão em correlação uns com os outros e podem ter – quase sempre têm – significados multivalentes.

A imagem, portanto, foi e continua a ser a primeira forma de linguagem do ser humano para representar seu mundo e atribuir significação aos fenômenos de vida. Em essência, esse conjunto de imagens – o imaginário – é uma das várias formas de linguagem com que o ser humano compõe suas narrativas sobre a vida. O mundo é caótico e esse caos é angustiante, muitas vezes incompreensível. Por isto, o ser humano compõe narrativas que são a sua resposta ao caos da vida.

A representação da realidade não é a própria realidade. É uma versão humana da realidade, tal como percebida pelo indivíduo ou grupo. Por meio das narrativas o ser humano representa a realidade desejada, representa o mundo como deveria ser e não necessariamente como é de fato. A composição de uma narrativa exige o que em ciência se chama de “inteligência complexa”, ou seja, o uso da inteligência racional, da inteligência emocional e da inteligência intuitiva, de tal modo que essas três dimensões se articulem para que o ser humano possa agir no mundo em que vive. A vida é sempre muito complexa e multidimensional. Por isto, a ciência, em geral, cria modelos que simplificam a realidade, extraindo dela aspectos que pareçam importantes para, a partir deles, tornar possível a identificação de causas, efeitos, diagnósticos e prognósticos que ajudem o ser humano a tomar decisões. Consequentemente, todo e qualquer paradigma apresenta anomalias, isto é, depara-se com fenômenos não abrangidos pelo modelo e que não podem ser compreendidos a partir desse paradigma.

Na civilização Ocidental, a Ciência surgiu e se desenvolveu enfatizando muito a inteligência racional. Os dogmas do Iluminismo e do Positivismo repudiaram tanto quanto puderam as conexões entre inteligência racional, emocional e intuitiva. Esses paradigmas – que nunca foram universalmente aceitos nem mesmo pela própria civilização ocidental – para produção de conhecimentos científicos entraram em irreversível crise já no início do século XX. A aridez e a impessoalidade do paradigma racionalista são insuficientes para a apreensão de fenômenos importantes da vida e para a sua compreensão mais abrangente e profunda. Nesse contexto evolutivo, cada vez mais a produção do conhecimento – científico ou não – exige o uso da inteligência complexa. As inteligências emocional e intuitiva passaram a ter merecido prestígio para a produção do conhecimento em geral e do científico em especial. Apenas para citar um exemplo, astrônomos e físicos de grande importância em suas respectivas áreas de conhecimento têm estudado a teoria das vibrações por meio das sublimes obras de Van Gogh. Por outro lado, a literatura também tem sido importante fonte de pesquisa para o estudo da Filosofia, Antropologia, Sociologia, Economia, Linguística, Direito e tantas outras áreas de conhecimento. A literatura possibilita ampla e profunda exploração de aspectos sutis da realidade, convida a viagens intuitivas e experiências emocionais intensas. Ao mesmo tempo, a composição literária se desenvolve também numa dimensão racional.

Foi, então, nesse universo fascinante do uso da inteligência complexa que Thaís de Oliveira desenvolveu sua importante pesquisa acadêmica que deu origem a este livro “O gaúcho: entre cantos e contos”. Com escrita ágil, leve, cativante, sensível e empática, a autora captou nuances dos aspectos morais, sociais, políticos, econômicos e culturais do gaucho argentino e do gaúcho sul-rio-grandense por meio da literatura gauchesca. Observadora muito atenta e crítica das narrativas feitas por José Hernández e por João Simões Lopes Neto, a autora explora o universo cultural em que vivem o gaucho e o gaúcho.

A identidade cultural torna-se um problema para alguém quando é confrontada com o repertório cultural identitário de outra pessoa ou grupo social. Alguém sabe quem é ao constatar quem não é. Compreender esse complexo processo dialético exige análise mais detalhada dos elementos constitutivos da identidade cultural, que se forma ou se reformula a partir de um conjunto cumulativo de seis critérios. O primeiro deles é a alteridade, ou seja, a situação em que dois indivíduos ou grupos admitem e reconhecem a existência do “outro”. O elemento seguinte é contraste das semelhanças e diferenças entre esses dois indivíduos ou grupos. O mapeamento de semelhanças e diferenças acontece num lugar e num momento. Tanto o lugar como o momento do encontro podem ser físicos, simbólicos ou virtuais. Cada um dos indivíduos ou grupos passam, então, a atribuir significação à relação de alteridade nascida do encontro.

Finalmente, há o elemento da transcendência das semelhanças e diferenças para reorganizar os repertórios culturais que possibilitem a reprodução dos indivíduos, da sociedade e do sistema simbólico que passam a compartilhar. Ao analisar as obras de José Hernández e de João Simões Lopes Neto acima referidas, a autora deste livro percorre todos esses elementos constitutivos da identidade (na verdade, identidades, no plural) de quem habitava a região de que aquelas duas obras literárias se ocuparam. Há um encontro simbólico entre duas imagens: a do gaucho e do gaúcho. As obras escolhidas revelam semelhanças e diferenças entre essas duas imagens num lugar e num tempo muito mais simbólicos do que físicos. Embora as duas obras se vinculem ao ambiente geográfico, na verdade não há nelas fronteiras políticas. As narrativas de José Hernández e de João Simões Lopes Neto acontecem num lugar simbólico.

As fronteiras políticas e geográficas entre Brasil e Argentina têm pouca importância em face do gigante lugar simbólico em que vivem as imagens do gaucho e do gaúcho. Também, por isto, é que a distância temporal, cronológica, entre as duas obras não altera a dinâmica das narrativas. Trata-se de um tempo simbólico em que transcorrem as vidas do gaucho e do gaúcho. Ao realizar sua pesquisa e produzir este livro, Thaís de Oliveira valeu-se do método de leitura cultural, que consiste em buscar e compreender os elementos componentes do repertório cultural do indivíduo e/ou grupo relacionado com o fenômeno estudado e a significação desses elementos em função do encontro com o “outro”.

A leitura cultural busca a identificação de arquétipos, de elementos culturais miscigenados ou elementos dominantes que compõem o repertório de referências para o indivíduo ou grupo para, então, tentar compreender com mais profundidade a rede de significados intertextuais da cultura em análise. Neste sentido, a autora buscou compreender de modo abrangente e, ao mesmo tempo profundo, como os escritores gauchescos José Hernández e João Simões Lopes Neto apresentaram os personagens que aparecem em suas respectivas obras e o contexto em que tais personagens estavam inseridos. As obras Martín Fierro, de José Hernández, e Contos Gauchescos, de João Simões Lopes Neto, são indiscutivelmente clássicos da literatura gauchesca, cuja leitura é indispensável para quem queira conhecer ou estudar esse tema. Nessas duas obras há abundante linguagem imagética para compor as figuras míticas do gaucho e do gaúcho. Há mergulhos profundos nas emoções de cada personagem, a exploração de seus modos de pensar racional, emocional e intuitivamente, as angústias e certezas resultantes de suas percepções do mundo em que vivem.

Neste livro, com muita sensibilidade e sutileza, a autora explora esses aspectos e promove o encontro simbólico entre o gaucho e o gaúcho para, então, desenvolver outra narrativa para significar ou ressignificar os elementos dos repertórios culturais que compartilham, trazendo para o âmbito da Ciência, reflexões resultantes do uso da inteligência complexa.

Por tudo isto, com muita alegria, apresento aos leitores este fascinante livro que nos leva a viajar, no tempo e no espaço, pelo imaginário cultural gauchesco, a viver aventuras, a compartilhar emoções, a opinar sobre decisões que foram ou poderiam ter sido tomadas pelos diferentes personagens, a questionar nossos próprios princípios éticos e morais e, enfim, a compor a nossa própria narrativa sobre os gaúchos e gauchos.

Boa leitura a todos!

 

Renato Braz Oliveira de Seixas

Professor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP). Professor no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM/USP).

 

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1 – O GAUCHO/GAÚCHO E A LITERATURA GAUCHESCA

1.1     A ORIGEM DA PALAVRA GAUCHO/GAÚCHO

1.1.1 A Visão do Gaucho Pelos Argentinos

1.1.2 A Visão do Gaúcho Pelos Brasileiros

1.2     A LITERATURA GAUCHESCA NA ARGENTINA

1.3     A LITERATURA GAUCHESCA NO BRASIL

1.4     LITERATURA GAUCHESCA ARGENTINA E BRASILEIRA: UM QUADRO COMPARATIVO

1.5     QUEM FOI JOSÉ HERNÁNDEZ? 

1.5.1 Hernández: Trajetória de Vida

1.5.2 Hernández: O Militar

1.5.3 Hernández: O Jornalista

1.5.4 Hernández: O Político

1.5.5 Hernández: O Escritor

1.6     QUEM FOI JOÃO SIMÕES LOPES NETO?

1.6.1 Lopes Neto: Trajetória Pessoal  

1.6.2 Lopes Neto: O Empreendedor Fracassado

1.6.3 Lopes Neto: O Jornalista

1.6.4 Lopes Neto: O Dramaturgo? 

1.6.5 Lopes Neto: O Patriarca Das Letras Gaúchas      

CAPÍTULO 2 – AS OBRAS MARTÍN FIERRO E CONTOS GAUCHESCOS

2.1     UM OLHAR NO PASSADO

2.1.1 O “Matreiro” Melitón Fierro

2.2     MARTÍN FIERRO: EL LIBRO NACIONAL DE LOS ARGENTINOS

2.2.1 Contexto, Estrutura, Circulação e Comercialização de El Gaucho Martín Fierro (La Ida)

2.2.2 Os Críticos em Relação à La Ida

2.2.3 Retorno, Contexto, Mudanças e Estrutura Em La Vuelta de Martín Fierro

2.2.4 Os Críticos em Relação à La Vuelta

2.3     A OBRA CONTOS GAUCHESCOS

2.3.1 Contexto e Características

2.3.2 Estrutura, Circulação e Comercialização

2.3.3 Os Críticos

CAPÍTULO 3 – LA IDA Y VUELTA DE MARTÍN FIERRO

3.1     UN RECORRIDO POR MARTÍN FIERRO

3.1.1 Apresentação e Análise de La Ida

3.1.2 Apresentação e Análise de La Vuelta

CAPÍTULO 4 – CONTOS GAUCHESCOS X BLAU NUNES

4.1     OS CONTOS GAUCHESCOS

4.1.1 O Mundo Idealizado Por Lopes Neto e Narrado Por Blau Nunes

ANÁLISE COMPARATIVA

REFERÊNCIAS

ANEXO 1 - CAPAS DAS OBRAS EL GAUCHO MARTÍN FIERRO E LA VUELTA, DE MARTÍN FIERRO

ANEXO 2 - MANUSCRITOS DA OBRA EL GAUCHO MARTÍN FIERRO

ANEXO 3 - MANUSCRITOS DA OBRA LA VUELTA DE MARTÍN FIERRO

ANEXO 4 - PRIMEIRA EDIÇÃO DE CONTOS GAUCHESCOS

ANEXO 5 - LOCAL ONDE JOSÉ HERNÁNDEZ PERMANECEU EM SANTANA DO LIVRAMENTO

ANEXO 6 - PLACAS AFIXADAS NA PAREDE DO ESTABELECIMENTO COMERCIAL