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MEMÓRIA, PATRIMÔNIO E SOCIEDADE: ENSAIOS SOBRE INTERAÇÕES SOCIOCULTURAIS NA CONTEMPORANEIDADE

Autor: Luciano Chinda Doarte
Páginas: 190 pgs.
Ano da Publicação: 2018
Editora: Instituto Memória
Preço: R$ 65,00

SINOPSE

SEGUNDO PREFÁCIO

Em um mundo em que a cada minuto somos bombardeados por insta qualquer coisa, do efêmero, tentar formatar um pensamento crítico a respeito de uma preservação a longo prazo da cultura torna-se a cada dia algo complexo e que depende de uma infinidade de camadas do orbe público para se alcançar objetivos muito bem delimitados. Por mais simplório que isso possa parecer, acaba por se tornar uma das mais difíceis partes do processo de valorização cultural, a burocracia.

Ao longo da nossa história, que depois de muito tempo de discussão e apresentação de teses e antíteses, formou-se a ideia de uma história dividida em eras e viver na era contemporânea deu ao pensamento historiográfico, e também de outras ciências humanas, o dom e a maldição de presenciar a história mais fluida de todos os períodos. Ao passo em que tudo está pronto em nossas mãos, em smartphones, tablets e uma infinidade de artifícios tecnológicos (que sem dúvida alguma também acabam sendo de uma valia inestimável para o processo conservador da cultura), a forma como vemos o passado e sua importância para a nossa realidade vem sendo colocado em cheque diariamente. Presenciamos uma Era da Crítica na qual cada um consegue tirar suas próprias conclusões a respeito de todos os assuntos. Cabe dizer que a liberdade individual desse pensamento acaba caindo na esfera da superficialidade do conhecimento in loco na grande maioria das situações e todas as discussões se resumem em espetáculos de horrores onde cada um tenta defender sua posição e no final ficam apenas como gladiadores, sem chegar a nenhum pensamento novo ou crítico para apresentar.

Apresento tal forma de análise da sociedade atual para que se levante a discussão sobre a maneira que estamos colocando para as gerações futuras uma consciência de manter sua própria história salva, não em seus smartphones, mas sim em suas memórias e ambientes organizados para isso. Nesses ambientes também, cabe o questionamento que não sejam apenas um emaranhado de “várias coisas antigas guardadas” sem a mínima ordem ou análise histórica numa colocação de menosprezo, mas sim como um lugar onde as pessoas possam encontrar uma maneira de se religarem com o seu passado e a partir disso reformularem maneiras de melhorarem a sua realidade e o seu futuro.

Todos nós devemos nos indagar na atualidade sobre qual é o legado que acabará por ficar para a posteridade e como faremos para que essas gerações não nos enxerguem como seres que com todos os artifícios mais desenvolvidos que tínhamos à disposição, não fizemos nada para que a sua própria história fosse melhor conservada e analisada, uma das críticas que inclusive muitas vezes dirigimos às ações dos nossos antepassados. Um legado que pode ajudar na compreensão problemática e uma melhor formatação crítica da sociedade. Uma formação histórica que nos leva a compreender que nada muito otimista possa se esperar de uma nação onde não se leve em consideração tudo aquilo que já aconteceu como viés de melhorias para o presente e futuro.

Devemos também pensar que muito do que se entende hoje como proposta de preservação chegou até nós encharcado por escalas da sociedade que tinham mais poder que outras formulavam meios para que se conservasse uma história válidas para elas mesmas, o grupo daqueles que estavam “ganhando” tais momentos. Se deveria, então, preservar uma história heroica e não muito complexa do mundo em que estavam inseridos. Com o constante desenvolvimento da consciência da preservação somos apresentados a uma consciência de que tudo aquilo que for passível de análise e puder ser conservado para tal deve ser feito.

Ao longo desta obra seremos apresentados a várias esferas críticas de como um todo ou versões minimalistas nosso país vem fazendo para conservar a própria história e de que forma isso pode formar uma consciência crítica e avançada sobre o nosso pertencimento na história. Várias indagações devem ser levantadas durante a leitura desta obra, principalmente acerca de qual é a nossa visão de preservação e daquilo que deve ser mantido e, não menos importante, a quem estamos entregando tal processo de preservação. Entramos assim num ponto que, diga-se de passagem, pode ser o mais nevrálgico de análise para que se levante a indagação de como nossa cultura vem sendo feita usualmente como se fosse algo descartável, ou, ainda mais sensível, algo que pode ser delimitado como importante ou não. Levantar a questão de como a cultura vem sendo desmontada no mundo, de forma especial no Brasil, faz com que possamos ter uma visão mais analítica e com mais preparo para intencionar pensamentos que visem a formação de uma geração que vá contra isso, uma geração que não fique em um silêncio cômodo diante dessas situações em que a única forma mais forte de se resguardar a nossa cultura sejam jogadas de forma folclórica no lixo.

Também ao longo desta se debaterá qual a função e a importância do museu como instituição e aquilo que ele contém, também como a já levantada ideia da Era das Críticas e dos debates do que o museu pode ou não conter, quais atividades podem ser realizadas em seu interior e qual a forma que isso pode ser mantido. Não podemos apenas cair no erro de compreender a função do museu como uma entidade na qual se amontoa uma quantidade de várias coisas e quem o mantém, com isso, acaba por fazer o trabalho muitas vezes sem o mínimo cuidado ou condição para separação de material e sua catalogação, à exemplo. O museu por si só deve ser um local de onde se emane a vontade pela busca do conhecimento e formação do pensamento crítico.

Muito se pode levantar ainda sobre a preservação cultural e como ela vai permanecer na manutenção da memória material ou imaterial, numa onda em que acabamos esquecendo da cultura que vinha sendo passada de pai para filho, e que agora acaba sendo amontoada em museus como algo “estranho, exótico” e que certamente escuta muitas vezes o “nossa mas como isso funcionava no seu tempo” ou ainda “como conseguiam usar isso naquela época”, assustadoramente em alguns casos, para coisas que usávamos no máximo há uma década. As culturas do desapego e do mundo descartável vão minando qualquer forma de se preservar o que de fato poderia ser necessário para o futuro. Sejamos ainda sinceros: quando pensamos num futuro para o hoje podemos, infelizmente, vislumbrar, dentre tantos, um sem pensamento crítico ou numa hipótese mais dolorosa na qual a preservação e apresentação de determinados bens em museus ou espaços culturais seja apenas uma forma de fazer um semi-debate, raso e apenas pautado em embasamentos nulos, em que a cultura perca por si só a sua maior força: fazer com que pensemos. Essa hipótese deve causar preocupação até mesmo naqueles mais céticos quanto ao caminho que a humanidade pode escolher para a manutenção de sua memória e sua história.

Cultura, preservação, futuro, passado, ontem, hoje: essas palavras não devem estar presentes apenas nos livros didáticos utilizados muitas vezes como uma simplória base para a montagem de aulas nas escolas que também estão cada vez mais desmontadas e sem apoio dos seus mantenedores, mas palavras que necessitam estar nas mais diversificadas rodas de conversas. Devamos sempre discutir todos esses temas para que assim a consciência crítica se fortaleça e não sejamos apenas meros repetidores de conceitos ou pensamentos que nos são apresentados e achamos confortável aceitar e repassar sem nenhuma interpretação sempre melhor acabada. Um livro que apresenta esses questionamentos é oportuno para todas essas conversas, pois devemos estar olhando para trás e analisando aquilo que vem acontecendo no nosso entorno para que possamos nos formar cidadãos que vão buscar aquilo que mais necessitamos não apenas em eleições, mas no cotidiano, como agentes de mudança dentro da sociedade.

Ariano Suassuna, um dos maiores baluartes da valorização da cultura em entrevista para Revista Veja em 1996 disse: “Arte para mim não é produto de mercado, podem me chamar de romântico, arte para mim é missão, vocação e festa”. A arte, então, deve ser vista como algo que paradoxalmente se resume ao passo que se faz analítica em suas várias formas de representação, mas uma parcela que pode ser aprofundada e questionada. A arte da discussão, a arte de criticar e fundamentar novos pensamentos, a arte de olhar para o passado, pensar no presente e manutenção para a melhora do futuro.

Questionar-se deve ser no mínimo o que devemos fazer ao menos três vezes por dia logo depois de acordarmos e esta obra dá uma boa quantidade de material para que isso seja feito uma vez que levanta questões, aponta caminhos e deixa lacunas que geram discussões que podem auxiliar em nossa melhora de percepção de realidade cultural e histórica. Uma leitura que deve ser feita com a mente aberta para que se receba por ela mais material e embasamento para a nossa formação intelectual e crítica.

Gian Bettinhausen.

Historiador, pesquisador e escritor.

 

SUMÁRIO

De início, um começo (ou introdução)

O contato com o patrimônio: o paradoxo da relação despreze-encantamento

Porque astronautas deveriam saber sobre memória e patrimônio I

Porque astronautas deveriam saber sobre memória e patrimônio II

Porque astronautas deveriam saber sobre memória e patrimônio III

Sempre haverá um ponto em comum

Do caos [calmo] generalizado ao aumento da [des]atenção à cultura

As coisas e os museus I: a oficialização da cultura

As coisas e os museus II: a preservação dos objetos

As coisas e os museus III: a imaterialidade do material

As coisas e os museus IV: a política, a vaidade, o orgulho e o ressentimento

Os desmontes da cultura

Quando a empatia não é necessária e o respeito é vita

Dos casos da não representatividade tornar-se invisibilidade silenciada

Há um pouco de morto no que é vivo e um pouco de vivo no que é morto

“Eu sou arquiteta!”: nome, poder e intransigência

“Eles não sabem, mas o show começa bem antes”: pela valorização dos bastidores

Do que lembram os museus?

Como chegamos até aqui?: estética e anestesia cultural

O museu-templo, o museu-vitrine e o museu-laboratório

Queermuseu: do comportamento e do espaço público e/ou privado

La bête: da não compreensão da arte e da liberdade

Patrimônio, ciência e política: atravessamentos inseparáveis, debates contemporâneos

Selfies e museus: presença, ausência e registro

Das festas inventadas e das memórias criadas: a independência brasileira e a imagem glamorosa

Uma faca de dois gumes

Museu não é [só] lugar de coisa velha

O colecionismo patrimonial e as faltas na relação intenção-realização

O problema da idealização da ocupação

Referências sugeridas